terça-feira, 11 de novembro de 2008

Demasiado importante para ser discutido a sério...

Para a hora do "break", uma visita ao blog para distrair, com uma crónica de alguém conhecido... in...

“O futebol é demasiado importante para ser discutido a sério. Essa é logo a primeira. Se calhar é melhor repetir, não vá alguém pensar que houve gralha ou engano pior: o futebol é demasiado importante para ser discutido a sério. Pronto, está dito. E, no entanto, há um número cada vez maior de pessoas que pretende ter conversas sérias sobre bola. O leitor que sintonize, na rádio ou na televisão, aqueles programas de debate e faça as contas à quantidade impressionante de participantes que, escondidos num cobarde anonimato, falam de futebol e dos clubes rivais de uma forma completamente digna e respeitável. Repugnante.
Certo adepto do Real Madrid chamado Javier Marías (que também escreve uns livros) disse que «o futebol é a recuperação semanal da infância». E a mim ninguém ganha em criancice. Nem a mim nem a qualquer adepto decente. Nos anos 90, o Benfica teve um jogador brasileiro chamado Donizete. O meu vizinho de lugar cativo passava os jogos todos a gritar: «Donizete, não jogas nada! Tu gostas é de samba e feijão preto. Vai para casa!» Mas, nas raras (mesmo muito raras) vezes em que o Donizete marcou um golo, o meu companheiro de bancada gritava, com a mesma convicção: «Ganda Donizete! Quando é que renovam com o rapaz, pá? Esta Direcção anda a dormir.» Escuso de dizer que ninguém ria, ninguém apontava o dedo à volatilidade do consócio, ninguém assinalava que, para sermos rigorosos, não há mal nenhum em gostar de samba e feijão preto. O homem estava apenas a ser um adepto — e dos bons. Não merecia nada menos do que respeito.

Talvez seja importante não esquecer que quem faz do futebol aquilo que ele é não são os dirigentes nem os árbitros. E também não são, ao contrário do que se pensa, os jogadores. Quem faz do futebol futebol são os adeptos. Se não houver 60 mil maduros com vontade de se juntar, aos gritos, à volta de um rectângulo de relva, o futebol deixa de ser futebol e passa a ser chinquilho. Alguém duvida que, por essas aldeias fora, haja velhinhos com tanto talento para o chinquilho como o Cristiano Ronaldo tem para o futebol? A diferença é que há menos gente interessada em ver o melhor jogo de chinquilho do que em ver o pior jogo de futebol. E também há — dizem-me, embora careça de confirmação —, relativamente menos modelos inglesas na cama do melhor jogador português de chinquilho do que na do Cristiano Ronaldo.
Mas é triste constatar que nos cafés, nas empresas, nos estádios, cada vez menos gente exibe o mais pequeno sinal de facciosismo estúpido, de parcialidade irracional, de sectarismo acéfalo. É aqui que eu entro. Se tudo correr bem, podem contar comigo para o sectarismo, a irracionalidade e a estupidez. Assim Deus me ajude.”
in Ricardo Araújo Pereira

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